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segunda-feira, outubro 27, 2008

MAIS UMA PÉROLA DEONTOLÓGICA


Recomendação do Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas, esta sobre a linguagem violenta utilizada no noticiário desportivo:
«Transformar todos os desportos em competições de gladiadores, de luta livre ou de
boxe ou futebol é redutor para o desporto, desaconselhável para os jornalistas e fastidioso
para os leitores, ouvintes ou espectadores. O Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas foi, a este propósito, alertado por um pai que descobriu no filho de 11 anos potencialidades para o hóquei em patins e decidiu incentivá-lo na prática dessa modalidade. Tudo bem, não fosse a tendência quase avassaladora do jornalismo desportivo para tratar qualquer evento como se fosse único, terrível e grandioso. O pai deste pré-adolescente enviou ao Conselho Deontológico alguns excertos dos jornais que fizeram a cobertura noticiosa do torneio que juntou participantes entre os oito e 11 anos e que dão a ideia geral do estilo adoptado pelo jornalista: «Em busca de vingar», «humilhar o adversário em sua própria casa», «revelando que o Alfena era mais um alvo a abater», «Vingança saborosa» e «decidiram partir para a humilhação do adversário». São
alguns dos exemplos desta prosa que só pelo seu mau gosto já seria de bom-tom eliminar.
Infelizmente, frisa este pai, tal tipo de jornalismo tem efeitos negativos nos jovens ainda crianças, que, fazem do hóquei a sua diversão. É na alegria dos jogos que se sentem ompensados dos sacrifícios dos treinos e do cansaço das viagens. Na sua apreensão da vida, estes jogos nada têm a ver com «vingança» nem «humilhação». Para lá do apelo constante ao respeito pelo Código Deontológico dos Jornalistas, designadamente os artigos 2º e 7º, o Conselho Deontológico quer, a este propósito, reforçar as recomendações da UNESCO sobre «o compromisso ético para com os valores universais do humanismo que obriga o jornalista a abster-se de toda a forma de apologia ou de incitamento de todas as formas de violência, de ódio ou discriminação». Porque as escolas, os clubes profissionais, os clubes sociais são os principais lugares onde estas actividades se desenvolvem numa abrangência educacional de milhares de crianças, o seu tratamento noticioso exige bom senso. Ao invés de algumas opiniões que circulam subterrânea e insidiosamente entre certos analistas, a especialização jornalística obriga a um maior respeito pelo Código Deontológico dos Jornalistas e não o contrário.
Sob pena de caírem na denominação de «jornalismo menor» os jornalistas desportivos
devem ser os principais interessados em manter padrões de exigência ética e deontológica. O Conselho Deontológico dos Jornalistas recomenda, por isso, o cumprimento escrupuloso das regras acima referidas e apela ao bom senso e discernimento dos jornalistas para que casos como este não se tornem moeda corrente. Mesmo quando são as «cores da nossa selecção» que estão em jogo, mesmo quando se trata apenas de ganhar, o jornalista desportivo deve ter em conta que o seu objectivo é o relato dos factos. O que não o impede de os transmitir num estilo que atraia o leitor à sua leitura. Mas, acima de tudo, deve recordar-se que é seu dever deontológico «relatar os factos com rigor e exactidão e interpretá-los com honestidade».

15 comentários:

Rock Santeiro disse...

Que lindo... Já não bastavam os pais que se abstêm de acompanhar e ensinar os filhos, preferindo que sejam os jornalistas e os Media a assumir esse encargo, vem agora o Conselho Deontológico dos mesmos arvorar-se em deus :)
Mas quando dizem que o objectivo dos jornalistas "é o relato dos factos", estamos conversados... Para isso gravamos em vídeo ou em áudio, fotografamos ou chamamos redactores do Diário da República. Isto é gente que nunca soube lá muito bem com quantos paus se faz uma democracia.

Anónimo disse...

Uma pergunta de alguém, como eu, que não é jornalista:

Será que a classe profissional que o sindicato representa e, sobre a qual o Conselho Deontológico tece essas recomendações, é composta por mentecaptos?

Se um sindicato, ou qualquer orgão de um sindicato, tem essa visão dos profissionais que representa, ao ponto de fazer recomendações desse teor a toda a classe, que não só ao jornalista(s)envolvido,
então algo vai muito pior do que eu pensava: ou os jornalistas são genericamente um bando de atrasados mentais sem critério de avaliação do impacto do que publicam, ou o seu orgão de classe perdeu a noção da razoabilidade, do modo de intervenção e, pelo exemplo exposto no comunicado, da proporcionalidade dos factos que carecem de intervenção.
Pelo respeito que tenho pelos jornalistas, todos, de política a sociedade e do desporto, espero que o problema esteja na 2ª hipótese.

LAM

Armindo disse...

Oh sôrGénio

Então considera as regras deontológicas uma pérola?

Tá bem, tá!

Publius Hostilius disse...

São as chamadas pérolas... a porcos!

Anónimo disse...

Alguem, por acaso, se preocupou em saber se a pessoa que escreveu os textos do hoquei tem carteira profissional?

Alguem sabe se, pelo menos, se intitula jornalista? Nao me parece...

A queixa, no entanto, parece-me razoavel, atendendo as expressoes utilizadas.

Anónimo disse...

muito bom texto. tema importante e imprescindivel. já agora quero partilhar convosco um artigo de opiniao que encontrei em www.vilarealsport.com abraço

ass : Marco

Anónimo disse...

não sei onde está a pérola. parece-me que qualquer contributo positivo para a civilidade de uma sociedade é bom.

Aurélio Estorninho disse...

O jornal Público de ontem noticiou isto:
"Penhoras ao Sporting e ao Benfica desapareceram As cópias de autos de penhoras efectuadas pela Direcção-Geral dos Impostos (DGCI) a vários clubes de futebol, entre os quais o Sporting Clube de Portugal (SCP) e o Sport Lisboa e Benfica (SLB), desapareceram de um envelope selado que se encontrava na gaveta de uma funcionária da administração fiscal e foram substituídas por folhas para reutilizar na impressora. A informação é dada pela própria funcionária da DGCI no âmbito do processo que decorreu no Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) de Lisboa no seguimento da queixa do anterior director-geral dos Impostos, Paulo Macedo, relativa às fugas de informação da DGCI. O desaparecimento dos documentos foi abordado pela primeira vez numa informação enviada em Outubro de 2005 ao então director-geral pelo director distrital de Finanças de Lisboa. Este responsável relata o desaparecimento de autos de penhoras feitas a clubes de futebol e, face à denúncia, Paulo Macedo pede à Judiciária para averiguar a situação. Mais tarde, já no âmbito da investigação do DIAP, é apresentado um ofício do director distrital de Finanças de Lisboa que não é mais do que o relato feito pela funcionária do fisco a quem alegadamente foram roubados os documentos. A funcionária explica que lhe foi entregue um mandado de penhora em nome do executado SCP e que, no seguimento desse mandato, foram executadas diversas penhoras ao clube. A funcionária diz ainda que fez três cópias do documento. Arquivou uma cópia junto ao processo que decorria naquela direcção de finanças; outra no arquivo mensal da equipa a que pertence; e uma outra num envelope onde já se encontravam cópias de outras penhoras a clubes de futebol, nomeadamente ao SLB. A funcionária garante ainda que o envelope se encontrava fechado com fita-cola. Mas o inesperado aconteceu. Foi solicitado à funcionária informação sobre as ditas penhoras efectuadas ao Sporting e ao fazer essa informação tentou juntar a documentação. Mas tal não foi possível, porque o processo estava na sua mala pessoal, que tinha, naquele dia, deixado em casa. E foi então procurar o envelope com as cópias que tinha deixado na sua secretária. O envelope estava onde o deixou, mas toda a documentação que lá tinha deixado tinha sido substituída por um volume de folhas já impressas e que se destinavam a ser reutilizadas. Perante este relato dos acontecimentos, a funcionária foi chamada a depor no DIAP, tendo reafirmado os mesmos factos, acrescentando que não se tinha apercebido que os documentos tivessem sido usados. Disse ainda que não tinha como identificar o autor do roubo porque as suas gavetas estavam abertas e trabalhava num espaço aberto com mais 25 pessoas. O DIAP concluiu que, apesar de poder estar perante um crime de furto, não havia elementos que possibilitassem a identificação do seu autor e arquivou o processo. O director-geral dos Impostos, Paulo Macedo, pediu à Judiciária uma investigação sobre o caso dos autos."

O Anti Lampião disse...

mistério ..

"Penhoras ao Sporting e ao Benfica desapareceram As cópias de autos de penhoras efectuadas pela Direcção-Geral dos Impostos (DGCI) a vários clubes de futebol, entre os quais o Sporting Clube de Portugal (SCP) e o Sport Lisboa e Benfica (SLB), desapareceram de um envelope selado que se encontrava na gaveta de uma funcionária da administração fiscal e foram substituídas por folhas para reutilizar na impressora. A informação é dada pela própria funcionária da DGCI no âmbito do processo que decorreu no Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) de Lisboa no seguimento da queixa do anterior director-geral dos Impostos, Paulo Macedo, relativa às fugas de informação da DGCI. O desaparecimento dos documentos foi abordado pela primeira vez numa informação enviada em Outubro de 2005 ao então director-geral pelo director distrital de Finanças de Lisboa. Este responsável relata o desaparecimento de autos de penhoras feitas a clubes de futebol e, face à denúncia, Paulo Macedo pede à Judiciária para averiguar a situação. Mais tarde, já no âmbito da investigação do DIAP, é apresentado um ofício do director distrital de Finanças de Lisboa que não é mais do que o relato feito pela funcionária do fisco a quem alegadamente foram roubados os documentos. A funcionária explica que lhe foi entregue um mandado de penhora em nome do executado SCP e que, no seguimento desse mandato, foram executadas diversas penhoras ao clube. A funcionária diz ainda que fez três cópias do documento. Arquivou uma cópia junto ao processo que decorria naquela direcção de finanças; outra no arquivo mensal da equipa a que pertence; e uma outra num envelope onde já se encontravam cópias de outras penhoras a clubes de futebol, nomeadamente ao SLB. A funcionária garante ainda que o envelope se encontrava fechado com fita-cola. Mas o inesperado aconteceu. Foi solicitado à funcionária informação sobre as ditas penhoras efectuadas ao Sporting e ao fazer essa informação tentou juntar a documentação. Mas tal não foi possível, porque o processo estava na sua mala pessoal, que tinha, naquele dia, deixado em casa. E foi então procurar o envelope com as cópias que tinha deixado na sua secretária. O envelope estava onde o deixou, mas toda a documentação que lá tinha deixado tinha sido substituída por um volume de folhas já impressas e que se destinavam a ser reutilizadas. Perante este relato dos acontecimentos, a funcionária foi chamada a depor no DIAP, tendo reafirmado os mesmos factos, acrescentando que não se tinha apercebido que os documentos tivessem sido usados. Disse ainda que não tinha como identificar o autor do roubo porque as suas gavetas estavam abertas e trabalhava num espaço aberto com mais 25 pessoas. O DIAP concluiu que, apesar de poder estar perante um crime de furto, não havia elementos que possibilitassem a identificação do seu autor e arquivou o processo. O director-geral dos Impostos, Paulo Macedo, pediu à Judiciária uma investigação sobre o caso dos autos."

maiskemaluko disse...

Pum Pum.. la foi o estorninho para o maneta, mas ressuscitou as 14.19como anti lampiao, efeitos talvez do tintol, nao se lembrando que ja tinha transcrito a noticia do Publico, enfim coisa de parvos !!!!

nm disse...

Perdeu-se o meu comentário, Eugénio?

nm disse...

Aqui vai ele de novo, em versão resumida: mais grave que esta "pérola deontológica" que aqui postas, são os atropelos diários à deontologia jornalística que certos jornalistas e certos jornais cometem diariamente. A não ser que não se considerem jornalistas, nem jornais, têm que se reger pelas regras que norteam a actividade jornalística. Parabéns pelo sublinhado, porque acertas na "mouche".

Anónimo disse...

Este comentário voltou a estar actual.
Ao que li hoje no JN, por causa desta recomendação" do cons. deontológico, houve duas demissões de peso no sindicato dos jornalistas.


LAM

Helder Robalo disse...

Eugénio, não percebo. Qual é o problema? É dita alguma mentira?

Ou será que as expressões referidas no comunicado do CD são uma excepção? Será que no jornalismo desportivo estas expressões são assim tão raras?

De qualquer modo, é sempre importante relembrar que estas estão devidamente contextualizadas e reportam a um torneio de crianças com idades entre os 8 e os 11 anos.
«Em busca de vingar», «humilhar o adversário em sua própria casa», «revelando que o Alfena era mais um alvo a abater», «Vingança saborosa» e «decidiram partir para a humilhação do adversário». Não serão expressões de mau gosto?

Um abraço Eugénio

Ah, e parabéns pelo Leixões, naturalmente!

Anónimo disse...

A parte que provalvelmente custa mais a perceber é a ultima frase: "Mas, acima de tudo, deve recordar-se que é seu dever deontológico «relatar os factos com rigor e exactidão e interpretá-los com honestidade»". Oque sera q querem dizer com isto??