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sexta-feira, setembro 19, 2008

DEBAIXO DO VULCÃO


Numa recente viagem, li algures na parede de um aeroporto, no habitual frenesim do embarque/desembarque: "Nada há de tão certo como a mudança". Não deu para reparar se era publicidade ou apenas uma estranha mensagem de carácter bíblico mas a verdade é que a frase seguiu caminho comigo e chegou aqui.Políticos e dirigentes desportivos gostam muito de falar na palavra "mudança". Sobretudo quando são candidatos a um cargo ou se esgotou tudo aquilo que prometeram. Nessa hora, pode ouvir coisas assim:- Para o ano vamos ser campeões!Ou:- O país precisa de mudança!Tenho como máxima uma outra frase que um amigo brasileiro, também jornalista, me passou, a propósito do que acontecia no jornal onde trabalha:- Nada é tão ruim que não possa piorar!Acho que dirigentes desportivos e políticos seriam absolutamente honestos se em vez de nos venderam estas estórias de mudanças parafraseassem simplesmente o meu irmão brasileiro. Não só falariam verdade como nos dariam algum consolo. De facto, pensando bem, podemos estar mal mas ainda não atingimos a miséria social e intelectual extrema. Os engravatados estão certamente a preparar algo de muito mais grave mas esse nirvana ainda está longe.Sei que é uma visão uma bocado catastrofista da "coisa" mas aceitem-na como minha ou então como simples caso de cegueira, capaz perfeitamente de ser validada em termos médicos. A verdade é que os nossos dirigentes não merecem a nossa confiança. Podia citar Bush e o seu argumento das armas de destruição massiva para justificar uma invasão de um país estrangeiro. Podia citar Al Gore e o seu anúncio de apocalipse sob o patrocínio de eólicas ou de poderosos lobbis de ambientalistas. Também podia citar José Sócrates e o seu sonho de uma justiça eficaz e de uma educação digna. Se calhar já o fiz...Mas também podia chamar a esta praça pública os nossos dirigentes desportivos. Os que garantem vendas por nem menos um cêntimo que X e que vendem por menos 22 milhões de euros. Os que se escondem atrás de directores desportivos porque temem que venha aí chumbo grosso. Os que fazem alianças com A e depois vão tentar pedir desculpa a B Os que são acusados, pronunciados e condenados por acções no futebol e permanecem nos cargos. Os que dizem pretender ver a sua inocência provada nos tribunais mas que tudo fazem para que os processos prescrevam ou acabem devido a incidentes vários, mobilizando batalhões de advogados. Os que hoje desejam a morte do inimigo e depois dormem com ele (ou com elas). Os que usam a palavra liberdade mas depois castigam os jornalistas que a exercem. Os que sorriem para as câmaras, dão rebuçados a criancinhas e depois mandam bater pela calada da noite. Os que dizem nada ganhar no futebol e que enriquecem sem necessidade de ganhar o euromilhões.Enfim, toda uma casta, todo um escol, todo um refinamento. Mas atenção: ainda não podemos comparar a nação à Sicília. Não nos queiram já classificar como habitantes da capital da província italiana onde aconteceu a erupção mais marcante do século XX depois do devaneio de Hitler: a Mafia. Que sem sequer pode ser comparada, em termos de grandeza de de fúria destruidora, com qualquer actividade do Etna ou do Stromboli. Esses, os vulcões, pelo menos não enganam: quando mudam de humor, todos percebemos o que vai acontecer.
também in http://www.record.pt/noticia.asp?id=805016&idCanal=1089

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