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domingo, maio 25, 2008

VITÓRIAS NOSSAS, SALÁRIOS DELES


Nem de propósito:


«Após anos de abstinência futebolística, vi na RTP a final da Liga dos Campeões. Primeiro, como um exilado que regressa à terra natal, estranhei a mudança no estilo dos comentários. Antes, os jogos eram acompanhados por uma retórica vazia e despretensiosa. Agora, a retórica é vazia e de um pretensiosismo que roça a comédia: os "passes em profundidade" e os defesas que "sacudiam" foram substituídos por um nevoeiro denso e solene, que visa erguer o futebol a uma espécie de ciência e rebaixar o espectador a uma espécie de idiota. Mas o momento da noite (o jogo foi fraquinho) aconteceu quando o especialista de serviço notou que o treinador adjunto português do Manchester United instruía em português um jogador português que se preparava para entrar em campo. Extasiado, o especialista proclamou que ouvir a língua pátria naquele contexto era um óbvio sintoma da "importância do futebol nacional". Até aqui, nenhuma objecção. Só que o especialista não se conteve: "as pessoas têm de perceber isto!"A sério? Eu imagino sem dificuldade nem pessimismo um mundo em que as pessoas não percebessem a importância do futebol nacional e, sobretudo, não fossem intimadas, sob vagas ameaças, a percebê-la. Infelizmente, não passo da imaginação. Na prática, as pessoas percebem tudo, desde a imensa grandeza de Cristiano Ronaldo aos portentosos métodos de José Mourinho, que saiu do Chelsea vai para um ano e, segundo os peritos na matéria, ainda assim levou o clube à referida final (aparentemente, não levou o clube a perdê-la). O nosso futebol é mais que importante: é sobrenatural. Não espanta que o celebremos em regime permanente, e mediante um vigor que ninguém de boa-fé poderá questionar. A única questão é: o que ganhamos com as celebrações? Nada. Mas isso as pessoas não têm de perceber. Nem conseguem.»

Alberto Gonçalves, in "Dias Contados", no DN. Aqui a versão integral:

3 comentários:

Anónimo disse...

essa é uma verdade: no futebol portugal está no topo, ao contrário de quase tudo o resto; também não deixa de ser verdade que luís freitas lobo concluiu o comentário dizendo que o importante no futebol são os jogadores e os treinadores, numa clara alusão ao triste circo que é o nosso futebol ao nível dos dirigentes e outros abutres, e nisso concordo inteiramente com ele; mas existe realmente um pretensiosismo tão grande nos nossos comentadores que se torna agressivo, sendo o referido comentador apenas a ponta do icebergue porque se tornou, sabe-se lá porquê, o suprasumo da coisa; um dia que o futebol se torne numa ciência será apenas um jogo de computador, sem espectadores nem tele-espectadores, logo sem comentadores (talvez só o peter brooking). no futebol somos todos experts, é ouvirmos dizer o que todos sabemos que nos irrita.

nestas alturas de exaltação futebolística, haverá sempre vozes insurgindo-se contra o fenómeno, seja lá por onde for.

Anónimo disse...

Que pena! E o LFLobo e o ATadeia e o RSantos e tantos outros que são tão bons... de acordo com tantos especialistas da treta que por aqui abundam. Até que enfim que alguém escreve qualquer coisa de jeito sobre esta matéria. Agora só falta contar o mesmo sobre os iluminados dirigentes televisivos, que nada percebem do assunto mas que têm um punhado de bons amigos nos jornais e nas revistas. São estes quem realmente contrata os cientistas da bola acima citados.

Ricardo disse...

Gosto muito das crónicas do Alberto Gonçalves, acho até que o homem é dos poucos que sabe escrever bem neste país, mas essa crónica - além de umas verdades que diz pelo meio - pareceu-me bastante fraca. Sobretudo, ao nível do conteúdo. Provavelmente por ser o Gonçalves um homem afastado destas lides futebolísticas. Acho que a frase "o jogo foi fraquinho" diz muito sobre isso...