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domingo, março 09, 2008

MORREU ALBERTO ESPINHAL

São notícias que nos apanham sempre de surpresa. Morreu Alberto Espinhal. Um nome que provavelmente diz pouco ao mundo da Imprensa desportiva mas que a mim me diz muito. Foi meu director na "Gazeta dos Desportos", no melhor período desta publicação, quando uma equipa pequena equipa fez das tripas coração e arrasou com edições históricas (não apenas nas tiragens). Ainda há pouco tempo aqui falei dele e dos momentos da sua chegada à redacção, ao fim da tarde, nos dias de fecho, com uma Super Bock na mão e a fralda de fora. Advogado respeitado na praça lisboeta, Alberto Espinhal foi dirigente da Académica e do Beira-Mar e como director da "Gazeta", jornal de que foi também administrador, era para nós uma fonte permanente de inspiração, sobretudo através da sua experiência de vida e a liberdade que nos dava para criar. A última vez que o encontrei foi no Hotel Cidadela, na companhia do Virgílio Neves e do Mário Pereira, para um daqueles bates-papos pela noite dentro - não, desse vez não fomos corridos porque o "Dula" era um dos donos do hotel...
O seu corpo estará hoje, a partir das 18.30 horas, em câmara ardente na Basílica da Estrela e amanhã será rezada uma missa, às 11 horas, no mesmo local, seguindo o funeral para a terra natal (Anadia) de um director inesquecível de um amigo de todas as horas.

18 comentários:

Anónimo disse...

Eu também lé estive, no Cidadela, não sei se dessa vez a que te referes, mas também com o Virgílio, contigo e com o Mário Pereira. Fica a saudade. De um bom amigo!
João Esteves

Eugénio Queirós disse...

É verdade, João. Tu foste uma das minhas "pegas" com o Dula pois ele achava que não tinhas vida para fazer o SLB e depois deu mesmo o braço a torcer...
E aqueles jantares em Alcântara, que terminavam com o nosso director a urinar à porta do restaurante?

Inesquecíveis.

Eugénio Queirós disse...

Foi o único director que me conseguiu pôr uma tarde inteira a cavar o seu jardim com vistas para o mar de Cascais e que no fim me pediu para ir comprar uns pregos que a malta estava com fome...

Mário Pereira disse...

Às terças e às quintas-feiras, por voltas das 20 horas, ainda muito a tempo de participar no fecho (nem que fosse com um bitaite despropositado), ele chegava à redacção. Primeiro na Poço dos Negros, depois no Bairro Alto. Era tal como o Eugénio disse. Fralda de fora, , voz grave, super bock na mão (ou então uma nota para o velho Santos se apressar ir à rua garantir que a sede não chegaria ao primeiro andar de um ou outro edifcio). O Dula era, de facto, inigualável. Para nós, uma cambada de putos cheios de ideais (e de ideias, foda-se!), era acima de tudo um factor de união e de motivação. Fazia-nos acreditar no impossível, que nós não estávamos entregues a nós próprios, que a nossa pequenina redacção ganhava pequenas batalhas às da Bola e do Record. Ainda tenho na mente ele a dizer: ‘Gostava de ver amanhã a cara do Serpa e dos Cartaxana a lerem isto’.
Mas o melhor momento estava reservado para depois do jornal fechar. Com as mãos sujas de tinta fresca das primeiras edições, ainda em fase de acerto da cor, íamos todos jantar. Era aí o seu território, onde ele se revelava e se sentia realmente à vontade, onde nos chegava a dizer, não sei se apenas para nos animar, que gostava de um dia ter sido jornalista. A verdade é que aquilo resultava. Íamos para casa, ás tantas da manhã (um dia cheguei à cama já a minha mulher se estava a vestir para sair para o seu emprego), felizes da vida. Se era terça, ansiando que chegasse a quinta-feira. Se era quinta, pensando na próxima terça.
Depois dessa fase mágica, encontrámo-nos meia dúzia de vezes. A última já há uns dois anos. Por momentos, recordei esses velhos tempos. E ele fazia sempre questão de propor um novo jantar, com o Avelãs, o Eugénio, o Esteves, o Neves. Que não chegou a acontecer. Mas da minha parte, ele fica prometido. Não sei para quando, mas havemos de jantar todos juntos de novo, um dia. Até lá, Doutor Espinhal.´

Mário Pereira

Anónimo disse...

Momentos inesquecíveis, sem dúvida. E de uma camaradagem ímpar. Um grande trabalho de equipa, com um treinador xsensacional. Por razões profissionais, só lamento não poder acompanhá-lo neste último dia. Estarei no exterior. Mas fica a memória. Isso nunca se apagará!
joão esteves

Luís Avelãs disse...

Falar do "Dula" é muito difícil. Para mim e para todos os que tiveram a sorte de, nesta ou aquela situação, cruzarem-se com ele. O Espinhal era uma figura diferente da maioria. A intensidade com que se dedicava a tudo em que acreditava, mais do que contagiosa, era uma contínua lição de vida para os mais novos. Ao seu lado, a trabalhar mas principalmente a conversar - de preferência rodeados de petiscos, doses consideráveis de bebidas frescas ou com gelo e debaixo de uma atmosfera repleta de fumo - aprendi muito. Mais do que que em qualquer sala de aula. Ontem, como hoje, há muita matéria que só se aprende com uma espécie de professores que escasseia: os "professores da vida". Não sei quantas estórias o ouvi contar, nem tão-pouco enumerei aquelas que ouvi vezes sem conta. Mas, quando se aproveita sempre o "sumo" da conversa, jamais existe problema em falar do mesmo, em revisitar discussões. Que belas noitadas. Em Alcântara, no Bairro Alto, no Estoril, em Cascais ou em qualquer outro local. Em restaurantes finos, em tascas ou até na sua casa que, com muita regularidade, era invadida por um bando de loucos que, em torno de um projecto sem paralelo na história do jornalismo desportivo português, fizeram corar de vergonha gente importante. Bons velhos tempos em que ser jornalista era exactamente isso. Acreditar em algo e ter muita força de vontade, estar disposto a todos os sacrifícios para conseguir dar mais uma notícia que a concorrência sem beliscar ninguém. Apenas à custa do suor e de poucas horas de sono. Que prazer ver um jornal nascer à nossa frente, sentido vaidade de ter contribuído para isso...

Tenho muito orgulho em ter pertencido a uma equipa notável, mas mais ainda de ter tido a oportunidade de conhecer um Homem que poucas vezes vi como um Director. O Doutor, o Espinhal, o "Espinhal Medula" ou simplesmente o "Dula" era o amigo que todas as pessoas de bem merecem ter; um camarada (não se deve zangar com esta expressão...) de luta; um autêntico visionário num meio cada vez mais académico e bacoco e onde a liberdade se confunde com facilitismo ou falta de respeito. Ouso mesmo afirmar que era um modelo. Não daqueles da tanga, cheios de nove horas e regras de etiqueta, mas sim do género que a malta como eu gosta: descomplexado, despretensioso, trabalhador e honesto. Enfim, uma "seita" em vias de extinção...

Proponho que se organize um jantar em sua memória. Avanço, desde já, com Alcântara como o local do encontro. Ele deve concordar. Com o jantar e com a localização!

Luís Graça disse...

Não sei o porquê de me espantar ainda com notícias da morte de pessoas que conheci.
As notícias fúnebres são aos magotes.

Leio esta e não perco tempo nenhum a recordar-me da cara do Alberto Espinhal.
E vejo-me sentado à minha secretária, encostado à parede, a sorrir de uma qualquer "boutade" dele, dita com toda a convicção.
Era homem que não se ficava com uma provocação irónica por responder. E às tantas já não sabia se estávamos a falar a sério ou a brincar.

Também relembro a voz grave e colocada, aquele jeito informal de estar na Redacção, os olhos a brilhar.

A Gazeta era constituída por uma cambada de malucos a pilhas, álcool e tabaco.Gente que tinha a chave do 153 da Rua do Poço dos Negros e quando subia ao primeiro andar não pensava que estava a entrar para um local onde o pessoal se tinha de portar bem.

O segredo era mesmo sabermos como nos portar mal.

As barreiras da autoridade eram mesmo muito diluídas.

O Espinhal era apenas um actor dos meus tempos de Gazeta, uma mistura de "Gaiola da Loucas" com "Amarcord", de "A grande farra" com "Lawrence da Arábia".
Um épico surrealista.

O jantar é uma boa ideia. Alcântara absorve bem o espírito da homenagem.

Luís Graça disse...

FAREWELL

A cerveja na mão, a tiracolo
O cigarro na boca, locomotiva a fumegar de louca
Dois olhos de gato à caça de presa
As rugas da vida na aragem da noite

Vomitando setas da boca ladina
como descobertas que eram só dele
e aquele jeito de gingar na vida
como quem swinga com sabor a fado

Tinha por desporto esgrima de sorrisos
Malícias sortidas sem procuração
Num baile mandado
Perto do vulcão

Notícias à solta, são lavas e lágrimas
E o cheiro a tinta a piscar o olho
nas noites sem fim
com luar ao fundo

Eram outros tempos
eram mesmo assim
e eram melhores
porquê? porque sim!

Luís Graça, 10/3/2008

Descansa em paz, Alberto Espinhal.

Anónimo disse...

Conheci o doutor (por extenso) ALberto Espinhal numa hora extrema do jornal. Os dois, vivemos momentos extremamente dificeis para que o jornal contionuasse a existir e foi no "Metro e meio" que conseguimos convencer o eng. Gonçalves Pereira em dar fôlego financeiro ao projecto. E a "Gazeta" NÃO MORREU. Foi meu administrador, melhor, fomos dois amigos, coniventes. Até em situações de índole particular, pois ele servia-se de mim como o "balde das lamentações". Comi com ele muitas sopas e ovos estrelados no Zé do "Pocinho". UM dia, passados 10 anos, tive de deixar Lisboa, mas ele ficou ao leme, não deixando que o barco afundasse. Ainda hoje guardo - e ontem veio a relê-lo - o texto que ele escreveu quando me substituíu - e bem - na direcção do jornal. Não posso, pois os quase 74 não me deixam já conduzir e não irei a Anadia como devia. Mas não me esquecerei dele. Um dia, que já não será muito longo, nós voltaremos a comer um ovo estrelado. Ontem telefonei ao Santos e senti-o chorar. O Santos que está mal e que não se esquece de ninguém. Como o Espinhal. Mais um amigo que perdi...
Lembro as noites no Café S. Bento, com o Daniel Reis, em que um queijo da serra era pequeno. Não era, Daniel. Grande amigo e grande sportinguista, sem esquecer a sua Académica e Beira Mar.

Joaquim Queirós

almeida disse...

O lampião de Eugénio nem sabe que dizer do Benfica e do Camacho, como nem do lfbieira, estupefacto!

Ai, como eu te compreendo, galinhola! Que por um dia Portugal não se desunha em mentiras, invenções de bufarias e outras de almeidas para o material da morgada.

Mas não te deixes ir abaxo, macho, que amanhã é outro dia, porra!

Anónimo disse...

O "Dula"... essa não sabia!!! Foi com bastante emoção que li os vossos comentários e lembrei esses tempos aurios que fizeram parte da minha juventude. Os jantares, às terças e quintas, que acabavam pela madrugada dentro foram momentos marcantes para todos nós. Era nessas alturas que eu via o meu Pai no seu melhor a dar a táctica, montar estratégias e a contar estórias. No fundo sentia-se bem e feliz rodeado por voçês. Ao longo destes anos o meu Pai sempre falou de todos com carinho e amizade, em especial do Avelãs e do Eugénio.
Obrigado malta pelas vossas palavras e não se esqueçam que "O REI VAI NU" foi das primeiras páginas que mais gozo lhe deu fazer.

P.S.- Avelãs: fica combinado o jantar em Alcântara. O meu numero é 912111046.

TIAGO ESPINHAL

Zé Camões disse...

Não tendo conhecido a pessoa, as palavras do comentador anterior são ilucidativas da categoria da mesma. Pena que hoje já não haja jornalistas assim, mas escribas cujas capacidades só dão para parir posts como "A Manif" e respectivo postfácio...

Anónimo disse...

Foi com muita emoção que em familia fiz questão de ler as vossas palavras , tendo inclusivé nos proporcionado neste momento de perda e enorme tristeza um sentimento estranho que por momentos quebrou o gelo existente ... , como definiram tão bem este HOMEM que tanto marcou as nossas vidas , que tanto nos ensinou , e que jámais será esqueçido.
E caso se confime o tal jantar, se me permitirem gostaria de estar presente , pois certamente irei escutar outras tantas histórias e descobrir um pouco mais do Dr Alberto Espinhal.
Um bem haja a todos

Anónimo disse...

Obrigada a todos por contarem todos esses momentos vividos com o Dr.Alberto Espinhal, que me faz perceber o seu lado "vadio" e feliz da vida. Ao ler estas histórias faz-me sentir que ele realmente viveu como queria. E meus Senhores, para a família foi importante lerem todos estes relatos.
Um Muito Obrigada, pelo carinho.

Eugénio Queirós disse...

Estaremos la para erguer um copo de uisque em memoria do grande Dula

EQ

Miguel H de Mello disse...

O muito pouco que conheci do Alberto foi o sufeciente para me despedir dele no último adeus. Bem haja

LEÃO DA ESTRELA disse...

Conheci pessoalmente o dr. Alberto Espinhal numa dessas noites longas, algures no Estoril, após um jantar de aniversário da GAZETA, talvez em 1992. Um senhor, um conversador notável. Um exímio contador de histórias. E um líder que sabia motivar uma equipa fantástica. Depois deixou o jornal e perdi-lhe a rasto. Até que encontrei esta notícia. Que recebi com tristeza.
Luís Paulo Rodrigues

Anónimo disse...

Obrigada pelos voços comentários, nao sabia de tudo isso sobre o meu Pai..se o tal jantar se vier a realizar gostava de estar presente e conhecer os grandes amigos do meu Pai e ouvir as historias sobre ele.

Leonor Espinhal (filha)

Ps: caso o jantar se realize o meu contacto é 911142138