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quarta-feira, janeiro 02, 2008

SE NÃO SE IMPORTAM...


Faz dez anos dia 5, lembrou-me o João Faria, que está sempre atento, que iniciei a minha actividade no "24 Horas", sob a direcção de José Rocha Vieira, um tipo a quem dois meses mais tarde fiz uma patifaria, ao trocar o jornal que então ainda não tinha saído para as bancas por "A Bola", naquela que foi a decisão mais difícil da minha vida mas que tomei sobretudo depois de falar com o meu amigo de sempre Mário Rodrigues, que viria a falecer um dia depois de eu ter colocado tudo em pratos limpos. Mais uma razão para jamais esquecer esse momento turbulento. Há decisões que temos de tomar e cujas consequências nos acompanham para sempre. É o caso desta da qual não me arrependo embora admita ter ficado sempre a pensar como seria se tenho ficado no "24", de onde, mais tarde, Rocha Vieira, um dos meus gurus do jornalismo, também saiu, deixando porém as bases de um projecto jornalístico completamente diferente de todos os outros. Há quem veja nos jornalistas uma espécie de mercenários mas acreditem ou não eu não vejo as coisas assim. Pelos jornais por onde passei - "Gazeta dos Desportos", "Correio da Manhã", "Jornal de Notícias", "24 Horas" e "A Bola" - guardei sempre um bocadinho dessas "camisolas". Os jornais como as mulheres, no fundo, embora estas sejam muito mais difíceis de domar e até de estimar. De todas as experiências, foi na "Gazeta" que mais amigos fiz e onde mais me realizei, tendo, aí, desempenhado quase todas as funções - de paquete a chefe de redacção (só não fui director porque não quis e ficaria mal um jornal, mesmo em fim de curso, ter um director que só usa sapatilhas e que não tem um fato). A "Gazeta" foi um jornal que sempre correu um bocado por fora, com meios muito inferiores à concorrência, mas que deixou marcas para além da espectacular primeira página que tinha toda a cores, com grandes bonecos e sem as pindéricas festinhas do golo que por aí se vêem. Foi um jornal que pode não ter feito cócegas a "A Bola" mas que se aproximou muito do "Record", batendo-se com ele à 6.ªfeira. Por alguma razão o então proprietário do "Record", em 1994, decidiu comprar a "Gazeta" por sensivelmente 400 mil contos. Um ano e meio depois o jornal despedia-se, depois de ter sido dirigido por uma equipa-maravilha seleccionada a dedo pelo João Marcelino! Mas se na "Gazeta" quase tudo me aconteceu, foi no "JN" e no "CM" que o meu ego mais se exaltou. São dois grandes jornais, com gente muito boa, e onde se sente o "feed back" dos leitores e só é pena que muitos dos seus jornalistas ainda hoje não tenham de tal consciência, tomando isto como mais um incentivo para fazer mais e melhor. Como diz um amigo meu, os jornais têm muitos jornalistas mas são feitos diariamente por muito poucos. É um tema que deixo em aberto num momento em que se fala em crise na imprensa a propósito de um ataque de saudades provocado por uma mensagem do João Faria, leixonense e meu amigo. Fico a dever-te esta, "3".

10 comentários:

Anónimo disse...

realmente nao podias vestir a camisola do record... ai, quanto muito, punhas a gravata. jornal de engravatados...

Anónimo disse...

Recupera a GAZETA (tu que estás lá, mais perto dos gajos da Cofina) e podes contar com um jornalista. Um dos que, como tu, gosta da rua, da notícia e da reportagem pura e dura. Mesmo a perder dinheiro. Não tenho jeito para ficar tantas horas sentado

Luís Avelãs disse...

Tanto anos depois do fim da "Gazeta" ainda se ouve muita gente a falar desse jornal e do jornalismo que por lá se fazia. Se as pessoas soubessem as condições de trabalho que existiam... Sempre considerei que o passado não se repete, mas mentiria se dissesse, de forma absoluta, que um jornal com a lógica da "Gazeta" não vingaria hoje em dia. Os projectos, feitos com paixão e entusiasmo, podem sempre vingar!

ze da povoa disse...

Acho que uma pessoa que tem apenas a forma do trabalho para obter os rendimentos necessários para viver e, por isso, salta de emprego em emprego em busca da melhor situação, não pode ser considerada de mercenária. Mercenários são aqueles que, mesmo sem mudar alguma vez de emprego, utilizam o seu posto de trabalho para colaborar em campanhas contra pessoas, instituições, ou mesmo regiões. E desses não faltam por essas redacções fora.

Olheiro disse...

Acho que já disse isto aqui, mas se foi o caso, que me perdoem porque cá vai outra vez.

Estive na Gazeta a "prestar provas" para um anúncio em que pediam um jornalista. E "prestar provas" foi mesmo responder a um questionário sobre desporto. Recordo-me p.ex. que havia uma pergunta que rezava assim: «qual o jogador que jogou no Benfica, Sporting e Boavista». Havia uma foto para legendar, etc.

O Geninho estava numa espécie de aquário.

Fui dos 4 escolhidos e pretendiam alguém de Setúbal (que não era). O início do curso levou-me a dizer (estupidamente) que gostaria de conciliar (como me arrependo!).

Isto tudo para dizer o seguinte: 1) Tive pena da Gazeta ter terminado.
2) Podem não acreditar, mas dava para sentir que havia "espírito de equipa"...
3)Concordo com o que disse o Luís Avelãs: os projectos feitos com entusiasmo têm lugar. E acho mais. São mais genuínos, verdadeiros, têm qualidade, os "consumidores" já percebem quais são. E quando se tem poucos meios descobrimos que temos uma imaginação do caraças.

Ah! E a primeira capa da Gazeta era o Oliveira equipado à Sporting...acho que não errei...

Eugénio Queirós disse...

Lembro-me desses testes, foi quase uma brincadeira minha e do avelãs. Chegamos ao jornal a meio da manhã e já havia fila de candidatos na porta, fomos completamente surpreendidos. E a primeira pergunta do teste era "quantas leis tem o futebol" e poucos acertaram. Quanto ao espírito de equipa, era um facto, a começar no director Alberto Espinhal cuja chegada à redacção nos dias de fecho era sempre um acontecimento pois entrava de super bock na mão e com a fraldita de fora - não era um director, era um mentor! Grande Dula!

Eugénio Queirós disse...

Para fechar esse dia, o Dula contou-me a história do galo e com isso andei a ser gozado durante meses...

Luís Graça disse...

Passei por muitos projectos românticos, mas a Gazeta foi dos que me marcaram.

Foram três anos e meio de muita paixão, temperada por muitas frustrações e por muitas alegrias.

Era uma "Gaiola dos Malucos". À solta três vezes por semana. Num tempo em que a liberdade de expressão fazia outro sentido. Em que se conseguia dizer NÃO ao director sem ter medo de ser despedido. Em que se recusava um lugar na equipa de futebol do jornal ao administrador sem ter medo de ser despedido.

Eu tenho a Gazeta encadernada.

Olheiro disse...

Geninho,
Então se o teste foi lavra tua e do Avelãs, safei-me porque perguntavam jogadores das equipas que foram às finals da NBA nesse ano (Chicago Bulls e Phoenix Suns) e eu sabia os planteis de uma ponta a outra...

E na pergunta do jogador que jogou no Boavista, Benfica e Sporting respondi Botelho e escapou-me o mais óbvio.

AH! E acho que devo ter falhado na das Leis do Jogo :(

Ai que saudades ai ai!

Olheiro disse...

luís graça,

E eu tenho aqui ao meu lado encadernado o...«Stadium» ;)

Mas é emprestado :D