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quarta-feira, agosto 01, 2007

AVÔ VIRIATO


Morreu Viriato Mourão, aos 80 anos. É mais um que desaparece do "dream team" da "Gazeta dos Desportos", nos gloriosos anos 80 que vivemos na Rua Poço dos Negros. O Viriato era já um veterano, uma espécie de avô para nós, que nos garantia sempre uma página de futebol internacional. Por norma a última a fechar. O Viriato chegava à redacção a meio da tarde, lia a imprensa internacional, fazia os seus recortes e completava tudo com os telexes das agências (ainda não havia internet...). Aconteceu muitas vezes ainda ainda estar a aprimorar a sua página enquanto a gurizada improvisava jogos de ping-pong na redacção ou transformava as bancas em mesas de jantar. Raramente protestou e muitas vezes foi connosco para a noite. Jamais esquecerei uma delas, na sua "Luminosa", onde tinha a sua tertúlia. O Viriato morreu mas permanece nas minhas memórias e certamente também nas dos meus colegas João Bonzinho, Luís Graça, Mário Pereira, António Magalhães, José Meireles, Alexandra Tavares-Teles, Virgílio Neves (o maior!), Armando Santos e tantos outros que tiveram o privilégio de pertencer a uma redacção onde se trabalhava por amor à camisola e à arte.

Escreveu também o Paulo Querido:
Soube agora, por um inimaginável acaso, que Viriato Mourão morreu. A 31 de Julho, já passam alguns dias. Lamento não ter sabido antes. Fui a muito poucos funerais na vida, mas teria ido ao de Viriato Mourão.Viriato Mourão era um senhor. Viriato Mourão era um camarada. Um companheiro. Um dos jornalistas mais íntegros que conheci. Também um dos mais cultos e educados, nos vários sentidos das duas palavras.Há quatro referências na minha formação como jornalista. O Viriato é a primeira e a mais alta delas. Outros dois são dele discípulos e admiradores, o Daniel Reis, que pelo Expresso continua, e o João Querido Manha, que a profissão queimou e as redacções expulsaram cedo demais (o quarto, José Manuel Teixeira, o monstro de trabalho, não é deste campeonato).
Eu conheci o Viriato na Gazeta dos Desportos e trabalhei com ele ainda no Diário Popular. Anos intensos com a Calçada do Combro por centro de gravidade, da Poço dos Negros à Luz Soriano — ao Bairro Alto, à Lisboa, toda.A ironia da vida fez de mim chefe dele, um dia, no Desporto do Popular. Tentem chefiar quem muito admiram. Não fosse a extraordinária personalidade do Viriato e eu não teria sido capaz. Na verdade, só aceitei o cargo de editor (sucedi ao Paulo Luís de Castro, se bem me lembro…) depois de ter uma conversa sólida com o Viriato e ele me ter tranquilizado repetidamente.Inesquecíveis fechos de edição e ceias tardias já com o jornal do dia seguinte debaixo do braço, em casas de todos os tipos de fama, onde desse, onde houvesse um bife.O Viriato metia num chinelo as luminárias que eu, verdinho, reverenciava na profissão. Tratava-os com a finíssima ironia que nunca terei porque me falta a classe que o Viriato Mourão transpirava.Um companheirão.Quem quer arte, pague ao Mozart — era uma das frases, com variantes, do resistente Viriato, amante do belo canto e sonhador. Um boémio completo, vertical, único — do São Carlos à Pantera Cor de Rosa, topam? Com um sentido impecável do que é próprio: nunca o vi ser incorrecto, nunca o vi magoar ninguém nem, ao contrário de tantos outros, ter algum comportamento indigno da sua Dona Irene.Tenho inveja dos que com ele conviveram nos anos 90, já em A Bola, para onde colaborou décadas. Sempre senti saudades do seu olhar concentrado e divertido, sério quando era para ser sério e equilibrado quando outros descambavam.Não tinha um feitio fácil para os poderes, isso vos posso garantir. Conseguia ser um verdadeiro chato.Mas na hora da notícia, vinha o rigor.O Viriato não era só companheiro somente no sentido da camaradagem, era um profissional de enorme experiência, grande cuidado, e com aquela distância de eventos, homens, emblemas que caracteriza um jornalista e o distingue do enchouriçador de “conteúdos”, permitindo-lhe ver o que se quer ocultar ou simplesmente não está à vista.Impressionar o Viriato — só pela beleza. Podia ser uma jogada divinal de António Oliveira (o irmão do actual patrão de Imprensa) ou um golo de pantufas de Nené (ele viu muitos outros, limito-me aos elos comuns) ou uma soprano a exceder-se na pauta de Wolfgang Amadeus.Ou então pelo carácter e pelo humanismo, os privilégios dos sensíveis.A malta é enrabada e mal paga, mas diverte-se muito — era outra das frases com que conseguia aliviar um momento tenso das relações nem sempre fáceis com chefias e administrações. Sem por um segundo perder a posição.Diverte-te, Viriato (e, repara!, pela primeira vez fui capaz de te tratar por tu, porque também eu já tenho idade para certas coisas).
Nota no sitio do Sindicato dos JornalistasEvocação do João no seu novo espaço tipo blogue, do “tempo em que se podia aprender a ler nos jornais, como eu aprendi no Diário Popular dos anos 60, onde Viriato era chefe da redacção desportiva e Aurélio Márcio redactor - uma geração de jornalistas que sabia tratar a palavra e que não admitia a subserviência”

9 comentários:

Anónimo disse...

Ele era um dos últimos moicanos. O "pai" do saudoso José Neves de Sousa ainda esperou uns anos para ir ter com a sua "preocupação diária". Não ouvirá mais as sinfonias que tanto amava, nem beberá o copo de leite frio e saboreará o iogurte que o Viriato afirmava ser o segredo da sua longevidade na profissão. Eu perdi um amigo, mas também um dia - que já foi mais distante do que é . irei ter com eles e ainda recordaremos a nossa "Gazeta". Um homem dos que pertencem ao curto número daqueles que nunca esquecerei.
Joaquim Queiros

Anónimo disse...
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Zé Luís disse...

Vê mas é se começas a glorificar o teu novo futuro director. É que o futuro ex-director já começou... e olha o que ele escreveu do moço há quatro anos atrás...

Anónimo disse...

lembro-me dele, Eugénio, como também de si, quando, despreocupadamente, vinha ter um rato de paleio com a malta 'revisionista'...

amélie

Anónimo disse...

A Gazeta dos Desportos, que adquiria religiosamente ás 2ªs, 4ªs e 6ªs, valia mais pela sua primeira página a cores do que pela sua qualidade informativa.

Fez-me perceber, ao fim e algum tempo, que a realidade do futebol está distante das histórias gloriosas onde este desporto foi crescendo ao longo os anos.

eugenio disse...

Bem, a "Gazeta" podia não ser um grande jornal mas continua sem perceber por que razão Joe Berardo, então dono do "Record", deu por ela 2 milhões de euros no Verão de 1994... E o que sei, o que eu vi e não inventei foi uma tiragem recorde de 208 mil exemplares, com 4 edições, no Verão de 93, quando o "je" chefiava a redacção ao lado de João Bonzinho!

Anónimo disse...

Geninho, fazes-me lembrar o Record que vendia 120 mil no Verão de 1997, 98 e 99 e agora vende 71317 acrescidos de 4,5% do que vendera no último treimestre de 2006, ou seja já nem ao 69 (mil) chegou. Involuções.

jmr disse...

Pois é Eugénio, pareces a gente d´O JOGO.
Dizem que vendem 38 mil, mas afinal andam pelos 22 mil.

Luís Graça disse...

A notícia da morte do Chefe Viriato foi recortada de A BOLA e coloquei-a no meu álbum de recortes fúnebres.

Viriato Mourão foi para mim um Mestre, um Amigo, um Conselheiro, uma presença fleumática e bem humorada.

Tê-lo exactamente atrás de mim na Redacção (ao lado do José Meireles) foi um enorme privilégio.

Visitei-o no Hospital de S.José há uns quatro anos. Sei que era um dia de Festa do Jazz no S.Luiz. Levei-lhe o meu livro de poesia "Idade das Trovas". Depois reencontrei-o nas madrugadas do Galeto, já recuperado.

Ficam as memórias e as saudades. Das idas à pastelaria Nita (onde o chefe de ensinou que 'mórbido' podia querer dizer doce, a propósito de um chocolate), dos lanches em que eu e o Viriato provocávamos a Alexandra Tavares Teles, dos trechos de ópera que ensaiava em plena Redacção, do diálogo a propósito da minha crónica "Não há pão para malucos" (cujo título ele achou chocarreiro), das intermináveis 'discussões editoriais' com o José Meireles, a propósito do SE7E e do Diário Pupular, da arte literária que eram os seus artigos sobre futebol internacional, das provocações ao Marcelino Nunes ('Olha o Marcelino! Há 'melão' (rugby) hoje?). Tantas e tão belas memórias.

O Viriato era mais do que um jornalista. Era um tipo, uma lenda, um homem de um outro tempo.
Um tempo melhor, em que as Letras eram mais bem tratadas.