AGORA ESTOU AQUI

domingo, junho 17, 2007

FRUTA & CHOCOLATE


Apalpar a fruta é coisa que as mercearias não recomendam. Uma papaia madura dispensa apalpadela. E o pior é quando ela já está demasiado tocada. Na tocaia da noite as mancebas mundanárias confundem-se com (a)pitos. As conversas são como as cerejas. E andam de boca em boca. Quando se gosta de fruta – e a fruta é de se comer – não é preciso escolher o cabaz. Pega-se aqui, pega-se acolá e o céu até pode não estar estrelado. Só os ingénuos acham que as pêgas são amadoras. A fruta, escachada, come-se em qualquer lado. Sobre a relva, natural ou artificial. Com paixão ou sem ela. Nos hotéis, para os bons clientes, até é normal e um sinal de cortesia encontrar um cesto de fruta nas respectivas suites. Há quem não dispense morangos com açúcar.A ironia máxima é que, quando está de ananases, como dizia o Eça, derretem os untos. Colhe-se a fruta, tira-se-lhe a casca proboscídea nessa peregrinação de Compostela. Dá-se uma dentada na polpa da manga, duas, três, dez, vinte, cinquenta, mil. A fruta é o afrodisíaco que alimenta a gula. Engula- -se, pois. Cuspa-se a seguir. A polpa às vezes sabe a caroço. A alteração dos sabores tem muito a ver com as mudanças do tempo. Até os ambientalistas sabem disso. Aliás, o que está a retardar a decisão do Governo e a mitigar as soluções ‘Ota’ ou ‘Alcochete’ é a certificação de que, a bem do turismo, a fruta não seja mais pisada. Já bastam as queixas das uvas. Pisadas, esmagadas, retardadas no lagar – não confundir com hangar – da perdição. Tirem as gaivotas deste filme (o Nicolau Breyner até agradece) porque a culpa é da fruta, que nunca se deve apalpar. Logo, o assunto deveria ser tratado na mercearia e não nos tribunais. Pela fruta morre o peixe. As sereias também falam no campanário do morgadio. Ou pensavam que elas só davam (a)o rabo?


Rui Santos, hoje, no "Correio da Manhã"

7 comentários:

Anónimo disse...

ESTE è igual aos "OUTROS" Feroz "CENTRALISTA",só tenta ver os eventuais "Defeitos a300 Km",os que estão mesmo ao alcance da vista e ouvido há 80 anos, não sabe nada,não ouve nada......?!

Anónimo disse...

enquanto o zé povo anda entretido com esta sanha para engavetar o pinto da costa e/ou o valentim loureiro, em lisboa a vida segue de cocktail em cocktail. a casa pia parece ter fechado e o processo portucale, esse sim com factos que põem em causa o estado de direito e no qual o ministério público deixa a PJ a xuxar no dedo, não ata nem desata. o povo é sereno e vagamente estúpido. na OTA ou em Alcochete, eles sói querem o porto na segunda e o papa em custóias...

borealis disse...

antes do garnier paris, as coisas que se punham no cabelo também eram compostos de fruta.

aqueles é que eram os velhos tempos hein meu caro RS?

anti jornaleiros disse...

Genial!

Não fosse o Correio da Manhã e a nossa imprensa desportiva seria um imenso boletim de propaganda aos rostos do SISTEMA.

Aperta Azeite disse...

Ainda bem que o Joaquim Oliveira só tem jornalecos do Porto, se não branqueava tudo o que dizesse respeito às escutas do Apito Dourado.

Anónimo disse...

Tá bem, honra ao CM.

Mas fabuloso é, ainda mais que os irmãos Baker, o JNPdaC, "Quem não Deve não Teme" (digo eu), no "Público" de hoje e amanhã.

E fabuloso porque, inteligente e consciente, não se toma por parvo das tortuosidaes do 'esquema' que, de um lado e outro de Lisboa, há muito que só o deseja tramar.

E então é tal aquele livro aberto e blogue e agenda e jornal e carta íntima ou bilhete postal, numa entrevista bem conduzida, do Bruno Prata (olá, brunão!) cheia de espírito e presença no que, de tão claro e simples, flui ao nosso entendimento (termo de fonte paineleira) como só deve ser assim o mel a escorrer.

amélie

Anónimo disse...

mas que de fruta e
de vistas e eu lá atiradinha
estava, de certeza, agora, ó Geny,
tamém, não fosse a lonjura de só tão tarde
o caro me ter avisado da largada desses aviões...

"Tirem as gaivotas deste filme (o Nicolau Breyner até agradece) porque a culpa é da fruta, que nunca se deve apalpar".

bem tirada, e desta tamém gostei,
aiai-ay!