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quinta-feira, fevereiro 01, 2007

A crise da Imprensa desportiva




É algo que já salta pelos olhos dentro. A Imprensa desportiva tem vindo a perder mercado. Há várias razões que podem explicar este fenómeno que se regista desde o início do século XXI, quando os dois grandes jornais desportivos andavam na faixa dos 100 mil exemplares de vendas médias diárias, o que é uma marca excelente num país que consome pouco jornais e que quando o faz normalmente é à borla. Os jornais desportivos terão um mercado global na ordem dos 250 mil leitores fiéis e mais quando as épocas aquecem ou quando ocorrem grandes eventos - por exemplo, as vitórias do SLB. Vou tentar "elencar" aquelas que me parecem as razões desta crise:


1. A principal. A obsessão por manchetes em redor do tema Sporting-SLB mesmo quando estas equipas não dão uma para caixa e é o FC Porto que factura. Por outras palavras, o que é notícia do dia ou pode ser notícia do dia seguinte é ultrapassado pela lógica "estes é que vendem", o que origina manchetes ridículas e completamente descredibilizadoras. Uma grande parte da culpa é da possibilidade de hoje se conhecerem rapidamente os resultados das vendas de cada número... Lembro-me de um dia ter uma reunião com um administrador para lhe pedir que me desse os números de vendas de cada edição, para tentar saber que capas tinham mais impacto, e de este positivamente me ter mandado à merda, o que na altura levei a mal mas hoje compreendo perfeitamente. O jornalismo não é uma corrida de 100 metros mas uma maratona...


2. A secundária. Uma submissão envergonhada ao poder dos clubes que transforma os jornais desportivos muitas vezes numa espécie de órgãos oficiais dos clubes, sem que consigam depois o devido retorno com cachas, pois as informações são distribuídas a todas, com a excepção do FC Porto, que privilegia O JOGO, jornal que não meto nestas contas mas que é preciso ter em conta.


3. A terciária. Uma polícia de comunicação autista dos clubes, completamente anorécticos na libertação dos seus jogadores para entrevistas individuais e completamente obcecados por entrevistas colectivas que no dia seguinte saem com sabor a ranço porque entretanto rádios, televisões e sítios na net já contaram tudo.


4. A íntrinseca. Falta de espaço para que os grandes repórteres dos jornais façam a diferença. Sobra muito pouco após o SLB, o SCP e o FCP e estas secções foram entretanto transformadas em quintas onde é difícil lavrar um naco de terra. Poucas entrevistas, pouca investigação, pouco investimento em áreas que geram notícias e interesse: Federação, Liga, árbitros, sindicatos, futebol jovem e mesmo "socialite desportiva". Não consigo entender como é que depois de tanto tempo não houve um só jornal desportivo que apostasse numa mini-redacção em Londres, parece que é mais importante estar na Madeira...


5. A extrínseca. O fenómeno net. Diga-se o que se disser, a informação desportiva é abundante na net, com grande responsabilidade dos sites dos próprios jornais desportivos. A BOLA teve a ideia completamente peregrina de disponibilizar online toda a sua edição papel, o RECORD tem um site dinâmico e o O JOGO também funciona bem com as suas notícias na hora. Depois, temos o Maisfutebol com a excelência a que já nos habituou e muitas vezes bem mais atento ao lado folclório e estatístico do futebol e agora o Sportugal com toda a sua agressividade e um bom painel de comentadores. Para além de todos os outros sites internacionais e dos...blogs, com estes últimas muitas vezes a anteciparem-se aos próprios desportivos, o que é extraordinário, para não lhe chamar outra coisa.


6. A geral. As novas gerações não lêem jornais e desde sempre os jornais desportivos foram muito lidos pelos jovens. Eu, por exemplo, aprendi a ler no MUNDO DESPORTIVO.


7. A acessória. Ou não. Demasiados jovens turcos em posições de chefia, técnicas de liderança coladas a cuspe de livros da secção respectiva da FNAC, demasiado lobismo na formação das equipas e, sobretudo, uma falta gritante de uma referência a que no "meu tempo" chamavámos chefe de redacção e que era o motor das edições e a cara do jornal. A figura do chefe de redacção diluiu-se numa massa pouco consistente de supereditores, editores e subeditores, com todos a atrapalharem-se uns aos outros.


19 comentários:

Anónimo disse...

"o jogo,jornal que não meto nestas contas"


ó jhtyrtsfd< ,então o jogo é o quê?

é de longe o único jornal desportivo.

porque o jornal em que tu trabalhas e o outro,não passam de folhetins de propaganda.


não é verdade,anti-portista primário?

João Seminário disse...

Falta no mercado "A Gazeta dos Desportos" de há 10 anos atrás. Livre independente e sem medo que lhe fechassem as portas nos treinos. Talvez por isso, foram eles que lhe fecharam as portas na sua melhor fase.
Ah! já me esquecia: Eras o chefe de redacção. Mas, também tu, tiveste o teu Judas. Talvez por isso, não páras num jornal e nunca mais foste chefe.
Já tiveste moral para falar de tudo isto. Agora não. Defendes descaradamente os maiores corruptos do futebol português e isso é mau.
O teu grande defeito foi sempre deixares levar-te pela emoção e algumas palmadinhas nas costas.
Tam mais de vinte anos de jornalismo e ainda não entendeste que para os "pintos" e "valentões" não passas de um preservativo?

Anónimo disse...

bem dito

paulo silva disse...

se não acertaste na mouche, falhaste por menos de um milímetro...

luis disse...

Bem.

Apenas no ponto seis uma questão: as novas gerações não lêem jornais porque as gerações anteriores não as compram. O meu avô comprava o jornal, os meus pais compravam o jornal, o meu irmão comprava o jornal.

Hoje eu não vou comprar o jornal aos meus filhos. O que terá mudado não é o meu filho, fui eu.

galvao99 disse...

O ponto 2 é o grande responsavel pela diminuiçao da qualidade dos desportivos. Nao querem cuspir no prato onde comem e transformam se em orgãos de informação e manipulaçao das direcçoes dos clubes. As pessoas nao sao parvas nem gostam que as façam passar por tal.

Uma dessas épocas que "aquecem" e que costumam proporcionar aumento de vendas de desportivos está a suceder desde há uns meses com o apito dourado e as tiragens descem em vez de subir porque os desportivos se demitiram de fazer o seu trabalho, se demitiram das suas responsailidades pra com o desporto e para com os seus leitores.

nao querem cuspir no prato onde comem e vao acabar por nao ter o que comer.

JR disse...

1. A principal - O facto de se terem tornado diários. Quantidade não é qualidade e para terem assunto para "encher" diáriamente 50 páginas por vezes descura-se a qualidade.
2. A secundária - A falta de VERDADEIRO JORNALISMO, i.e., isenção, rigor e investigaçao. Quantos jornalistas têm a coragem de dar a sua verdadeira opinião ao relatarem os jogos que noticiam? Quantos artigos de investigação jornalística, verdadeiramente importantes, foram feitos pelos nossos jornais (desportivos)nos últimos (15) anos?
3. A terciária - O facto dos jornais desportivos terem de ser "amigos" ou "simpáticos" para com os principais clubes para poderem ter acesso a "notícias" e os seus jornalistas dignos de "simpatias".
4. e por aí fora discordando de (quase) todas as suas opiniões excepto uma: O fenómeno net.

Anónimo disse...

Três jornais desportivos diários! Quatro jornais diários generalistas com secções desportivas que, algumas vezes, não ficam atrás dos chamados especialistas em desporto. Redacções dos jornais desportivos imensas, futuros candidatos ao subsídio de desemprego. Jornalistas sem inaginação. Titulos e reportagens repetidas. Reportagens no estrangeiro com dois e trâs enviados especiais, com reportagens de reduzido interes~se. Ainda ninguém pensou que o futebol internacional nos chega pela TV. De que estão à espera os jornais, abdicando de jornalistas de estatísticas, de coleccionadores de cantos, off-sides, e tácticas, e tenho bons representantes em Espanha, Inglaterra, Itália, França e Brasil. Deixem as conferências de imprensa e deixem os dirigentes, treinadores e alguns futebolistas que não sabem abrir a boca a falarem sozinhos. açam jornalismo e os leitores aparecem.

Xerxes disse...

Resulta de quase tudo isso e mais umas coisas que não quiseste dizer, que um indivíduo comme moi, leitor fiel e pagante diário de um jornal dito generalista e de pelo menos um dito desportivo até meados da 1ª década deste novo século, seja hoje um voyeur das edições da imprensa portuguesas na net.

eugenio disse...

Duas respostas. A primeira para o Zé Luís. Concordo com tudo mas não posso deixar passar comentários com determinadas apreciações pois está muito gente à coca. Mas manda sempre.
A segunda para o admirável escritor das neves. Como sabes melhor que ninguém, não estou a soldo dos senhores que dizes que elogio à ganância. Sabes que a minha opinião quando muito está hipotecada às minhas emoções ou então à minha tendência para ser desconcertante. Quanto a essa história de nunca mais ter sido chefe, não é coisa que me preocupe muito pois reconheço que não tenho perfil para tal, como muito bem disse um dia o JPM, nos tempos heróicos da Poço dos Negros. Mas garanto-te que era capaz de fazer jornais com muito mais pica...mas essa é outra história. Quanto à Gazeta, pois, ai, ai, que saudades, ai, ai, mas, como também sabes, foi directamente para a colecção Berardo antes de ser cilindrada pela brigada do Snob. Fica, no entanto, para a história como grande escola de jornalistas, como projecto gráfico inovador (graças ao Virgílio também das Neves) e como espaço de liberdade e de igual irresponsabilidade. Que jornal podia ter um director que entrava na redacção com uma garrafa de super bock na mão, a fralda de fora e histórias para nos contar pelo noite dentro, depois de uma edição do caralho? Só mesmo a Gazeta que o pequeno Hitler tinha sob espionagem, sinal do seu respeitinho pelos pequeninos...

Aquele abraço para "ambos os dois"

Anónimo disse...

Ah Eugénio, esqueci-me: se tu tens alguns problemas é melhor não aprovares o que ficou dito antes.

Anónimo disse...

As razões da quebra de vendas, de menor leitura, está na razão directa da baixa qualidade do jornalismo que vocês fazem. Não há jornalistas, neste caso na área do desporto. Ou são pavões, ou amplificadores de som dos clubes, ou não sabem ligar o sujeito com o predicado.

transmontano disse...

um post simplesmente fantastico,principalmente a forma de fazer primeira pagina,pior do k isso,so mm o record atribuir a medalha de ouro ao tixier por ter tirado o quaresma do jogo,só espero que o rui costa n se lesione mais para eles inventarem uma razão qq para lhe dar a medalha,vc foi habituado a ler o jornal, eu também,mas ainda n existia a net,isso explica quase tudo.

RP disse...

É uma geração atenta e que não compra noticias redigidas para os adeptos dos grandes e crónicas aos jogos verdadeiramente anedóticas e mal redigidas na maior parte, resultado bancadas vazias e jornais nas bancas.

VC disse...

"3. A terciária. Uma polícia de comunicação altista dos clubes".

Pode explicar melhor?
Se fosse uma política de comunicação autista, ainda percebia...

João Carlos Lopes disse...

Mais uma razão da decadência dos diários desportivos "nacionais": o problema é que eles não são nacionais e esgotam-se até à exaustão em artigos, comentários e estatísticas sobre os três grandes, num ritmo e numa frequência que causa náusea e enjoo. O resto do país não existe, o futebol do resto do país não existe, os clubes do resto do país também não existem. Contudo eles movem-se todas as semanas, muitos deles históricos, que têm sempre boas histórias para contar. Mas não, arranca-se uma reportagem sobre esses clubes uma vez por ano, não por opção, mas por causa de algum facto fortuito: um jogo da taça contra um grande, por exemplo.

João Carlos Lopes, Torres Novas, leitor diário do BNA

Teixeira disse...

Já disseste quase tudo Eugénio. Bom post.

Deixo só um exemplo. Tenho 31 anos de idade. Desde os 12 que fazia questão de ir comprar o jornal lá para casa não fosse o meu pai esquecer-se de o comprar. Li o jornal A Bola muitos anos. Nunca gostei do Record. E o Jogo passei a compra-lo por volta dos 25. Há 2 anos fiz umas contas e reparei que pela quantia que dispendia por mês no jornal desportivo podia meter internet em casa. Nunca mais precisei de comprar jornais e agora até tenho acesso a uma informação mais democratizada.

ps: o jornal O Jogo bate por KO toda a concorrência. E gosto das opiniões do Manuel Tavares.

Um abraço

Visigordo disse...

Opiniões clubisticas à parte, a imprensa escrita desiludiu, e como tal, desaparece!
É inadmissível ver um director de jornal responder a um dos gatos fedorentos com o argumento "Não os atacamos porque eles são o nosso ganha-pão". Isto é jornalismo?
Quando sabem que há um processo em ebulição, nenhum dos nossos diários desportivos o acompanha.
O leitor, fideliza-se com a confiança que o jornal lhe transmite. Os de Lisboa, só lhes falta imprimirem a capa do Benfica campeão, porque já está feita e é sempre feita todos os anos. O do Porto, abraçou outra causa. Nos de Lisboa também se abraçou a mesma causa, mas o efeito é o mesmo. Cabecinha debaixo da areia e implodir o Apito, nem que para isso se tenha de mandar abaixo a Morgado e a sua equipa.

Zé Luís disse...

"Concordo com tudo mas não posso deixar passar comentários com determinadas apreciações pois está muito gente à coca. Mas manda sempre".
Gente à coca, Geninho?
Foi por isso que te afastaste dessa gente, pela coca?
Ou se estão a armadilhar alguma coisa estás preocupado contigo ou comigo?
Não é a mim que deixas enigmas, mas a quem gosta de te ler e decerto às vezes, como eu, não se percebe o que dizes.
Se concordas com o que digo, e complementará o que dizes, deixa as pessoas lerem. Quem enfiar a carapuça que enfie até onde quiser.
Depois de escarrapachares, muito bem, o "Estado da Nação" dessa malfadada profissão, não estou a ver que perigosidade tinha o que te escrevi.
É por esta, e por outras vencidas, que me apetece sempre escrever menos. E raramente. Como faço.
Mas estou atento. Então neste "millieu"...