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quinta-feira, maio 11, 2006

As minhas histórias (8)


Saltillo, há mais ou menos 20 anos, numa galáxia muito distante.

Todos os dias um esquilo visitava o terraço do meu quarto, com vista para a savana mexicana. Saltillo, 23 graus às oito matinais, uma luz crua e o calor a desabar sobre a Terra. No meio de coisa nenhuma, com a cidade também em fundo de paisagem, passo pela piscina, entro na recepção e peço para usar o telex. Tenho pela frente duas horas a picotar fita, para cumprir a minha missão diária com "O Comércio do Porto", ficando com o resto do dia livre para arranjar mais histórias para à noite mandar para a "Gazeta dos Desportos". Quando aqui é meia-noite já Portugal está quase a acordar e há dias em que, por isso, tenho de me despachar mais cedo para a "Gazeta", a meio da tarde, pois o jornal fecha cedo, luta com os dois "grandes" da imprensa desportiva. Vá lá que só saía 3 vezes por semana (2ªs, 4ªas e 6ªs)... É uma rotina de repórter sempre muito preenchida e com o aproximar do primeiro jogo, com a Inglaterra, em Monterrey, a quase 200 quilómetros, começa a ser preciso também fazer alguns quilómetros por dia. De autocarro, claro. Ou à boleia dos jornalistas estrangeiros que, curiosos, tentam perceber as razões da rebelião dos jogadores portugueses. Nos dias de Monterrey, regresso sempre no último autocarro, noite cerradíssima, a dormir. Não sei como nunca falhei a saída na estação de Saltillo... O outro dia começa muito cedo, com a visita do esquilo, na esplanada do meu quarto com vista para a planície e a Sierra Madre. Quem me vai valendo é o cozinheiro Evaristo, com o leite creme com que me presenteia. E as tacarias de Monterrey... O meu quarto é grande e a zona de duche quase tão grande como ele. São poucos os dias em que possa também fazer uma "siesta". Aproveito o que posso e também o facto de ter ali os jogadores à mão de semear. Lembro-me de uma entrevista a Bento, na zona da piscina. "Se não fosse o Evaristo já tínhamos ido todos embora...", diz-me ele e eu escrevo, e é manchete. Acredito no Manuel Galrinho, decano das selecções, felino das balizas. Iria partir a perna depois do jogo com a Inglaterra e bem falta nos fez nos jogos com a Polónia e com Marrocos. Assim sem mais, acho que o jogo com a Polónia foi em Monterrey também. O de Marrocos tenho a certeza que foi em Guadalajara. Percebo esta falta de memória sobre o 2º jogo. Apanhei um telefone livre e estive quase duas horas, enquanto o jogo e o intervalo decorriam, a falar com a minha namorada. Era um puto de 24 anos, tinha direito a este tipo de falhas...e não havia jornal no dia seguinte. Havia só mais um dia no México para viver. Mais uma visita do esquilo. Mais fita para picar. Mais uma viagem no calor da noite. Mais um taco com "Corona". Mais um dia em cheio para viver.

15 comentários:

galvao99 disse...

Oh tempo volta pra trás.

Anónimo disse...

Sim, ao tempo em que havia jornalismo a sério!

Leirós disse...

E assim se fez um jornalista.
E deves continuar a ter orgulho em descrever o teu passado e a tua vida.
Cada vez há menos pessoas a ter que contar, porque nada fizeram nem nada fazem.
Um abraço

clintone disse...

vida dura a de jornalista hein

manel pedro disse...

bons tempos os do telex (ou não)
só espero que este ano os jornalistas estrangeiros não andem de volta de si para saber de mais alguma rebelião dos nossos jogadores...
Um abraço amigo

Anónimo disse...

Essa namorada ainda te atura hoje em dia?

Anónimo disse...

corona extra, com meio limão dentro... ah que maravilha...

eugenio disse...

não

johnny disse...

Eugénio, quando é que mandas a tua posta sobre o livro do carrilho e «os jornalistas que se prostituem»?

eugenio disse...

é já a seguir

RV disse...

Eugénio (tens o mesmo nome que eu.. ehehe), era interessante dares a tua opinião acerca do problema sobre as selecções (Agostinho/Scolari). Parabéns pelo blog. Ass.: leitor assíduo.

Mustaine disse...

Bela posta.
Fantástica, aliás. Este blog é um mimo.
Hoje, sou eu o miúdo de 24 anos, mas não tenho jornal... apesar do curso.
Quis começar um diário-online, mas o Estado não me deu dinheiro... "É pouco dinheiro, representa pouco investimento", diziam-me... ". "Mas são 5 postos de trabalho... para jovens", dizia eu.
Nada feito.
Ora, foda-se.

Que este blog nunca acabe.
Podia-se era fazer um banner todo janota. Qualquer dia, envio-te um...

eugenio disse...

Não desistas, as coisas não estão fáceis...
E bota aí esse banner.

Anónimo disse...
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Anónimo disse...
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