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quarta-feira, dezembro 12, 2007

...Santa Ignorância...

...Retomo os caminhos australianos e desfio memórias que, felizmente, o tempo não apagou. O Grupo onde Portugal calhou estava sediado em Brisbane, a capital da região de Queensland. James Sanders, um proeminente advogado, era o responsável pelo comité organizador local. Velhote simpático, como quase todos os australianos, estava sempre pronto para uma Fosters e para um dedo de prosa. Certa manhã, após o pequeno almoço, perguntou-me, verdadeiramente curioso, porque motivo, "sendo Portugal uma cidade espanhola e como tal bem mais pequena que Andorra", é que estavamos no Mundial e a Espanha não. Ainda hoje sinto um friozinho na espinha provocado por tamanho crime de "Lesa Pátria Lusitana". Lá lhe expliquei que não era nada assim como ele pensava, que Portugal, enquanto Nação com fronteiras demarcadas, era até bem mais antiga que a Espanha. Pela sua cara vi que não ficara convencido mas, educadamente, nunca mais tocou no assunto. Nessa manhã fui fazer um "vivo" para a margem norte do rio que dá nome à cidade e dei de caras com uma das muitas famílias aborígenes que vivem nas margens relvadas, tendo a copa das árvores e o céu como tecto. O Estado australiano paga-lhes pensões, já elevadas em 1993, e desta forma lá se ia praticando uma forma "inteligente" de segregação racial. Quando o "camera" tirou o equipamento do carro e enquanto eu me preparava para "debitar", o decano da família aproximou-se de mim e com o olhar enevoado por algo que exalava forte odor, perguntou-me qual o "canal para que trabalhava". Disse-lhe que vinha de Portugal e quando me preparava para lhe explicar que Portugal ficava nos antípodas fui completamente surpreendido pelo velho aborígene. Com os olhos a brilhar apontou para o céu e disse-me: "Portugal... veio do outro lado do Mundo, foram vocês os primeiros brancos a chegarem à Austrália, antes mesmo dos ingleses. Chegaram cá guiados pelo grande mapa das estrêlas". Por certo que ele percebeu o meu espanto porque de seguida explicou que "o meu pai contou-me, a ele contou-lhe o seu pai e ao seu pai o pai dele e assim tem sido desde o início, também eu já contei ao meu filho e ele já fez o mesmo ao filho dele".
É muito por estas histórias que não me arrependo da profissão que escolhi, mas há muitas outras...

6 comentários:

androctonvs disse...

bela estória, JCS.

continua, que a "gente" gosta.

futebolpensado.blogspot.com

Anónimo disse...

já tomaste o kompensan hoje?

ontem doeu..

Francis disse...

Brilhante. Chapeaux.

Anónimo disse...

Não creio que tenha sido a educação que tenha impedido o "velhote" de retomar a conversa, mas sim a percepção da sua própria ignorância. Teria sido interessante ele estar junto a si nessa reunião com os índios aborígenes. Acredito que o "velhote" ainda mirrava mais.

Na minha vida profissional tenho muitas estórias deste tipo de ignorantes, mas a que me ficou mais na retina foi quando um americano (outro povo estúpido e ignorante) do cimo do castelo de São Jorge me perguntar se o que se via do outro lado do rio era Marrocos.

Enfim, são destas pequenas coisas que me fazem pensar que não somos nós que somos pequeninosa, bem pelo contrário, até reafirmo a certeza que devemos ser dos povos mais interessados no saber de outros povos, logo muito mais inteligentes.

PS - escusado será dizer que este seu post é delicioso. Parabéns!

Anónimo disse...

Numa viagem em trabalho aos Estados Unidos, uma empregada de mesa perguntou-nos de onde vínhamos.
A mesa era composta por espanhóis,franceses e portugueses."España,France..." e a moça acenava com a cabeça e dizia "Yes,Europe".Quando eu disse Portugal ,ela diz "Oh Yes...ahh... South America right?"

HCarmo

Anónimo disse...

Estupidez e ignorancia sao coisas bem diferentes.
Ignorancia e nao saber aonde e Portugal, estupidez e catalogar milhoes de pessoas com base num numero reduzido de observacoes.

Um portugues que humildemente veio estudar para os EUA com americanos bem mais inteligentes e educados.